terça-feira, 8 de maio de 2012

Para quando o tédio chegar.

Quando o tédio chegar, entre no seu quarto, templo dos solteiros na casa dos pais, feche a porta e adentre no seu pequeno vasto mundo.

Comece pelo seu guarda-roupa com seus trecos e cacarecos. Arrume as blusas por cor e as bijuterias por frequencia de uso. Ou simplesmente se canse e, ao perceber que está cheia de badulaques inclassificáveis, simplesmente entrouxe tudo e enfie dentro do guarda-roupa novamente.


Veja seus livros e seus escritos. Leia alguns trechos daquelas obras que foram o livro de sua vida durante alguns dias ou alguns anos. Reveja as páginas amarelas daquele caderno velho e perceba  o quão frívola e repetitiva você foi ao pensar num mesmo pseudo-problema por semanas, meses. Tenha vontade de jogar tudo fora  e depois, por alguma estranha razão, devolva-os de volta ao canto subjetivo das memórias em sua estante, acreditando que velhos papéis amarelados com dizeres inúteis serão lidos com sofreguidão pelas suas netas.




Vasculhe seus CDs e, se você tiver mais de 20 e poucos anos, também os LPs que você não deixou sua mãe jogar fora. Se tiver uma vitrola, poderá colocar pra tocar aquela música que seu pai punha no toca discos em alto volume (Caracóis?), nas noites quentes de verão, dentro do abafado apartamento da região central, momento no qual você encostava seus pequenos ouvidos nas caixas de som e ficava admirada em perceber que a caixa não só emitia som como também vibrava com as batidas mais fortes.



Reveja seus álbuns. Olhe para as fotos de quando você era apenas uma adolescente espinhenta e perceba que embora não estivesse tão gorda quanto se achava, também não estava tão linda como está agora. Ou do contrário, compare o olhar das suas fotos com o seu olhar no espelho e pergunte-se como resgatar aquele brilho nos olhos que você foi perdendo em doses homeopáticas por entre os problemas e decepções da vida.


Reveja fotos da infancia. Da sua infância, da infância dos seus sobrinhos, irmãos e primos mais novos. Lembre-se de como eles enchiam o saco e choravam...veja você ao lado deles, veja seus pais ao lado deles e de você e impressione-se em perceber como os cabelos deles eram negros como a noite e, agora, sem que você tenha se dado conta, seus pais viraram avós e ficaram grisalhos e vagarosos. E chore de saudade por não sei o quê, ou por tudo que você sabe o quê e não quer assumir.

Olhe para o seu mural e sua pasta de scraps - que foi feita numa época em que nem existia esse nome chique para pastas com fotos, recados e pequenas memórias e lembranças de amigos e letras de músicas. Sinta-se inspirada a "postar" no seu quarto um recado em giz pastel - porque afinal essa era a sua forma de expressão quando não haviam redes sociais.

Leia, reflita, chore, suspire,vasculhe, reposicione, surpreenda-se, sorria, relembre, organize-se, desapegue-se, entregue-se ao mundo constante em seu quarto. E sobretudo, escreva, escreva, escreva...


Só não caia na besteira de, no auge do tédio, em troca de uma migalha de emoção e de atenção, submeter-se a qualquer amorzinho inventado, qualquer falsa promessa, qualquer furtiva companhia.

 E se nada do que fizer parte do seu rico mundo interior funcionar, fique tranquila e simplesmente relaxe. Feche os olhos. Espere o outro dia chegar. Porque afinal,  tédio é da família do sofrimento e da ressaca. Então, ele também passa.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O amor é um jogo de azar

Todo mundo que me conhece sabe o quanto sou fã de Amy Winehouse e quase sempre posto no blog um música dela. Ela tinha uma sensibilidade extrema e suas composições atingiam o ponto da dor sem serem piegas como qualquer dessas canções que viram tema de novela e a gente enjoa de ouvir por aí - cantadas em outras versões, em festas de casamento, em som no último volume de carros que passam na rua.

Mas há uma música dela que eu até então não havia postado. Creio que é chegado o momento: Love is a losing game. O amor é um jogo de azar.

Se você  encontra a pessoa que ama, talvez ela não te ame tanto quanto você gostaria. Vocês podem até ficar juntos mas, mais hora menos hora, a outra parte vai explodir. Ninguém está preparado para suportar amor demais de forma unilateral.
Se ao contrário, é você quem não ama, ou ama pouco, ou ama mais ou menos, ou sequer sabe o que é amor, pode ser que corte o mal pela raiz. Mas pode ser também que insista, porque acima de tudo possui um amor fraternal pelo outro e por todo e qualquer ser vivente. E isso vai fazê-lo explodir também a qualquer momento. Porque afinal, amor e caridade só andam juntos nas entidades filantrópicas. Quando falamos de dois, há também, além da alma, a carne.

Mas há aquele tipo de amor no qual a gente tropeça em toda esquina. É um amor (bem querer?) que se mostra seguro, confiável e protetor. Chega com promessas - mesmo que veladas -  de parceria, de envolvimento. Chega como qualquer dessas coisas que fazem a gente vislumbrar um futuro com algumas cores um pouco mais vivas...É um amor pelo qual se fazem grandes apostas.

Mas aposta é aposta. Aposta não é certeza, é possibilidade. Daí que passa o tempo e aquele amor que mal começou a nascer já vai mostrando vícios...e vai mostrando também que quem o dispensa o faz aos poucos, e não só conosco. Quem tem esse tipo de amor usa o amor como trunfo...e faz dele um jogo de azar.

Quando isso acontece, pode ser que dê certo... E pode ser que dê tudo muito, muito errado. Nesse jogo de azar chamado amor, todos os jogadores saem perdendo: quem sabe jogar e apostou errado; quem não sabe jogar e tentou a sorte; e sobretudo, sai mais perdedor quem só vem a saber que estava jogando quando perdeu.

Sim caros amigos...O amor hoje em dia é assim...Hoje em dia o amor, esse "bem-querer" no qual a gente tropeça em qualquer esquina, brilhante como ouro de tolo que a gente julga ser verdadeiro, é nada mais do que um jogo de azar.


Cantei em janeiro. Serve pra agora.


domingo, 1 de abril de 2012

Monstros x Alienígenas - ou as lições que os desenhos infantis trazem


Domingo de morgação pós-balada. Todas as noites são iguais...As tardes de domingo também.
Mas me chamou a atenção esse desenho que passou num desses canais de TV aberta ordinários que servem para sedar o nosso domingo.

Resumindo a história, a mocinha da foto, no dia do casamento, passa por uma mutação e vira uma gigante. Sendo classificada como um monstro, é capturada para permanecer em uma prisão especial pelo resto da vida. A história muda quando alienígenas invadem a terra e ela, juntamente com seus amiguinhos estranhos, são os únicos capazes de derrotar a ameaça.

Velho jargão de cinema. O que chama a atenção é o momento em que, logo após derrotar um gigantesco alien robô e salvar uma cidade do caos, a moça vai encontrar o noivo na tentativa de restabelecer a relação que foi rompida abruptamente no dia do casamento.

Após algumas piadas típicas de desenho, há um momento em que ele olha nos gigantescos e solícitos olhos dela e diz: "Você se tornou grande demais...E eu não poderei suportar viver pelo resto de minha vida na sua sombra". Na verdade ele não estava ligando para os novos 80 (??) metros de altura daquela nova mulher. Ele estava incomodado com o destaque que ela passou a ter e que ofuscava a sua medíocre carreira de repórter do tempo em um jornal local. Ela fica desolada. Pois para ela nada  - nem mesmo derrotar um alienígena e salvar o mundo de uma ameaça iminente - era mais importante do que ficar ao lado do seu amado Derek.

Ok ok...é só um desenho infantil. Mas é feito por pessoas adultas. E no fim das contas eu acredito que o que acontece com ela é o que acontece com muitas mulheres.

Mulheres que realizam grandes feitos. Mulheres que são fortes. Mulheres que não são feministas...são femininas e firmes. A mulher que tem fibra pode conquistar o que quiser ao seu redor: boa colocação profissional, status, brilho, sucesso, dinheiro. Mas por mais que tenha o mundo aos seu pés, seja ela uma bem sucedida arquiteta, uma executiva de multinacional ou uma cantora de sucesso, tudo o que ela quer é se sentir amada quando o horário comercial acaba...quando as portas baixam...quando a cortina se fecha.

Mas acontece que o brilho delas é grande demais e acaba ofuscando qualquer um que tente se aproximar. De fato, nem todo homem está preparado para viver à sombra de uma mulher poderosa.

Mas há ainda uma coisa: se o homem se incomoda de viver à sombra de uma mulher, é porque não tem luz própria. E se não a tem, de que vale sua companhia, se é em sua própria sombra que toda mulher de sucesso ou de destaque precisa da luz do outro, de calor, de aconchego?

Mais uma vez eu repito, é só um desenho infantil. É muita filosofia para um reles filme de tarde de domingo. Mas eu não pude deixar de extrair essa lição: de fato, há muitos, muitos homens por aí, que por simples medo, ou por falta de luz própria, não estão preparados para viver à sombra de uma mulher. E mal sabem eles que é na sombra, e não na luz, que elas revelam o seu lado mais feminino e poderoso. E é na sua própria sombra que o que mais elas precisam é de um homem realmente iluminado.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Não sei de onde, não sei de quem - mas é tudo verdade

..."Mas o comportamento das mulheres transtornadas não justifica a cautela masculina. O sujeito que se atira ao sexo e não encontra sentimentos encena um clichê triste. Ele tem algo a aprender com a capacidade das mulheres de se entregar e correr riscos. Não precisa pegar um carro de madrugada e sair voando para provar que ama – mas não deveria deixar sua heroína esperando sozinha, na chuva, por um amante que não tem certeza do que sente e não consegue decidir o que quer."...

sexta-feira, 9 de março de 2012

I can't help you


...if you don't help yourself...

Cada pessoa tem o seu momento.
O meu momento é de aguardar que chegue o momento certo.
E enquanto isso, viver minha vida que já anda tão boa, com autoconfiança e com a minha recém fortalecida estabilidade emocional, que nunca será suficiente...Mas que anda melhor do que a de muita gente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Espera: virtude dos pacientes...ou loucura dos imediatistas?

 Eu vim para casa pensando sobre isso.

Sobre os pacientes e os imediatistas.

Os pacientes têm uma resiliência e uma calma que lhe são peculiares.
Eles vivem, como diz a música do Jota Quest,  "esperando por dias melhores".
"Quando eu eliminar aqueles quilos, então poderei ser feliz"
"Quando eu comprar aquele carro, terei então o prestígio que quero"
"Quando eu trocar de cargo, de emprego, de profissão, daí então poderei fazer X ou Y."
Os pacientes condicionam a sua vida aos eventos do amanhã. "Quando eu casar", "quando eu crescer", "quando eu arrumar um namorado", "quando o ano que vem chegar".
Condicionam sua vida ao futuro, esquecendo de vislumbrar as possibilidades do presente.


Por outro lado, há os imediatistas, aqueles para quem a vida é agora ou nunca mais.
"Não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar" (Pitty), é o lema de vida deles.
"Se não for nesse momento, então esqueça"
"Se eu não consegui  até agora, eu não vou conseguir nunca mais"
"Essa é minha única chance, eu nunca mais terei uma oportunidade dessas..."
Os imediatistas vivem ansiosos pelos minutos que escorrem de suas mãos e viram passado num piscar de olhos. Para eles não existe vida depois de agora, de modo que suas vidas são um eterno Só Por Hoje. Agem precipitadamente e perdem as oportunidades que o amanhã traz.

O grande questionamento é: seriam sábios os que sabem esperar por dias melhores? Seriam loucos e considerados imediatistas aqueles que anseiam pelas coisas no momento presente, pois acreditam que amanhã pode nem chegar?




Eu creio que entre o que espera  - o paciente - e o que antecipa - o imediatista - poderia haver um meio termo: o do comedimento.
Os comedidos vivem o presente. Sentem uma leve ansiedade pela horas que passam, mas sabem que o amanhã traz tantas e tantas futuras horas, que somadas à tantas outras, torna-se-ão presente e depois passado.
Os comedidos COMTEMPLAM O QUE FIZERAM DE CERTO E ERRADO ontem, AGARRAM AS OPORTUNIDADES que o hoje traz... e AGUARDAM COM EXPECTATIVA E PROATIVIDADE o dia de amanhã.
Os comedidos dosam com equilíbrio a espera, encurtando-a se possível, protelando-a se necessário, pois sabem que tudo tem um tempo certo para ocorrer, e que não são suas mãos as responsáveis por atrasar ou fazer correr o relógio que marca os fatos importantes da vida.
Mas eu acredito que os comedidos, sobretudo, nunca deixam de ouvir - e isso é tão clichê... - a voz do coração. E não deixam de ouvir também a voz de outro coração que chama...e para o qual a excessiva espera pode ser fatal.

Passeando entre as três colunas, ainda não sei em qual delas ficar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Old fashioned?


"I'm old fashioned but I don't mind it
That's how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me"
(sometimes...and with some people only)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eu não sei pra onde vou. (adolescência tardia)


Quando você tiver um filho - se é que já não tem - tome cuidado quando quiser que ele cresça e amadureça antes da hora. Tome cuidado se, aos  18 anos, ele ainda não souber o que  quer da carreira ou da vida e ainda assim você insistir para que ele cresça, porque afinal  ele JÁ TEM 18 ANOS!!! Cuidado ao pressioná-lo, cobrá-lo, exigir posições e decisões precipitadas. Você poderá estar fomentando o nascimento de um adultescente sem rumo.

 Na verdade ninguém tem culpa pelo ótimo estado em que me encontro agora. Ótimo estado sim. Por que ótimo? Porque eu não tenho a MÍNIMA IDÉIA de pra onde eu vou. E isso, pra alguém que desde os 13 (!!!) anos de idade já tinha planos traçados para as próximas duas décadas, é algo simplesmente maravilhoso.

Não foi simplesmente a passagem de ano. Não foi uma viagem ou qualquer coisa assim. Essa benéfica falta de rumo foi fruto de uma longa observação das pessoas, das coisas e de mim mesma. Eu fiquei pensando que durante praticamente toda a minha vida eu controlei os passos do meu destino. Projetei minha vida de tal forma que aos 14 já tivesse idéia de minha vida profissional, aos 18 já tivesse início de carreira definida e aos 25, uma promissora união conjugal. E saiu tudo exatamente como eu planejei... O resultado desse maravilhoso planejamento milimétrico foi o stress, a sensação de vazio, a ansiedade e vários outros problemas anexos dos quais não convém nem falar...

Então agora, com alegria eu digo: EU NÃO SEI PRA ONDE VOU. Acho que não vou casar de novo. Acho que não vou querer ter filhos tão cedo. Não sei se vou mudar de profissão ou continuar na minha vidinha comum. Gosto da banda e vou levando com garra enquanto a vida me permitir. Talvez faça alguma viagem para fora do país pelos próximos dois anos, assim que reorganizar minha vida. Talvez viva de viajar. Ou talvez me recolha em algum apartamento do litoral numa pacata vida de caminhada à beira da praia toda noite. Também não descarto morar no interior ou fazer dele minha segunda casa - se os ventos assim o quiserem...



Tenho pensado o mesmo na questão dos relacionamentos.
 Talvez encontre pelo caminho ainda muitas pessoas especiais, que simplesmente passarão sem criar vínculo. Mas quer saber...? Isso pouco me importa agora. As pessoas vêm e vão e aproveitar um momento especial com elas é o que vai ficar. Creio que seja melhor aproveitar um momento especial com uma pessoa que vai me deixar boas lembranças, do que me aprisionar a alguém que me trará alguns momentos de alegria e outros tantos de dor. Logicamente, aceitarei de bom grado se  alguém especial vier pra ficar. Mas não sei - e que bom é não saber! - se quero isso agora.
Pra fechar esse post...lembrei-me de uma música muito própícia.



Certa vez eu postei no meu blog a seguinte frase em latim: Ubi dubium, ibi libertas, com um ponto de interrogação no final. Não sabia que dúvidas podem ser libertadoras.
Mas, diante de tudo o que tem acontecido em minha vida, eu posso com propriedade dizer:

Ubi Dubium, Ibi Libertas

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Comida Japonesa. (ou Sobre a Possibilidade de Escolha)


Hoje eu andei pela cidade, porque graças a Deus estou em férias, e isso me permite - ainda que eu tenha milhares de pequena tarefas pedantes a fazer - circular por aí como quem não conhece relógios.

Passeei pelo centro velho da cidade, o que me dá um enorme prazer; é onde encontro minhas referências de infância - ainda que elas estejam agora permeadas pela degradação nem tão glamourosa de 20 anos atrás.

Passando pelo Shopping Light, resolvi me dedicar ao exercicio futil de ver vitrines... e parei na praça de alimentação pra comer. Como sempre, vi uma variedade gigante de opções, desde as junkie food - sim, agora lá também é possível comer no concorrente do McDonalds , o Burguer King - até as opções mais afrescalhadas e nem por isso mais saudáveis que a boa e velha comida da minha avó.

Dentre elas, escolhi a comida japonesa. Nada de peixe cru, não que eu tenha algo contra, mas escolhi um prato quente que aprecio muito, com frango empanado acompanhado de mais um monte de coisas estranhas e de gosto peculiar das quais não abro mão quando vou a qualquer "JapaFood".

Mas, na verdade o centro desse post não é a comida japonesa. O que me surpreendeu realmente foi a capacidade de me surpreender mais uma vez com a infinita possibilidade de escolha que essa metrópole oferece. Pensei sobretudo, e me surpreendi, com as nossas infinitas possibilidades de escolha na vida em geral.

Daí eu me fiz um questionamento muito profundo: como é possível, em meio a tantas escolhas e possibilidades, se deixar aprisionar dia após dia ao velho lugar comum? Logicamente há por toda parte gente que prefere sempre o mesmo restaurante, o mesmo pedido de sempre, o mesmo bar, o mesmo parque, o mesmo caminho de volta pra casa, o mesmo canal de TV...(e nisso não deixo de ponderar: toda rotina tem sua beleza). Mas quantas vezes nos deparamos com pessoas que tornam sua vida sem graça, sem sal e nem açúcar, pelo simples medo de sair da zona de conforto?

Isso se dá também nos relacionamentos. Quantas vezes não entramos num relacionamento trazendo o nosso mundo e querendo que ele seja aceito e introjetado na vida do outro, sem abrir espaço para o novo e o diferente?

Também pensei que, durante muito tempo, eu achei maravilhoso frequentar cantinas italianas, comer massas, tomar vinho. Mas com o passar do tempo, foi ficando monótono. Não pela rotina, não pela mesmice. Mas pela eliminação do meu poder de escolha. Eu  permiti, durante muito tempo, que se introjetasse em mim um mundo inteiro que não era meu; e deixando meu mundo de lado, com ele  se foram minhas infinitas possibilidades.

Olhei com satisfação para aquele hashi - ainda que me perguntando como diabos um japonês pode passar a vida comendo arroz com aqueles dois pedacinhos de bambu. Fiz alguns malabarismos e não derrubei nada além de uns grãozinhos fora da bandeja e -!!! - o missoshiru  (acidente esse não relacionado ao uso do hashi!!!). Voltei pra casa feliz, porque depois de 7 anos eu pude passar por uma praça de alimentação sem me preocupar com o gosto alheio, somente com o meu, ampliando assim as minhas possibilidades de comer assim ou assado, da forma que me aprouvesse.

E pensei que o que me mataria não seria comer Kara Ague ou Rondelle, no almoço e no jantar, pelo resto dos dias de minha vida. O que me mataria, de verdade, seria perder minhas possibilidades de escolha.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pra terminar


Pra terminar o ano... Faltam pouco mais de 24 horas pra ele terminar.
Deveria terminar com esse ano tudo o que com ele veio e não frutificou.
Deveria terminar com ele tudo o que trouxe dor, desconforto, dúvida, angústia.
Deveria terminar com ele toda essa minha mania cretina e obsessiva de ser assim tão visceral.
Deveria terminar com ele toda essa minha verborragia sem sentido e sem para quem.
Deveria terminar com ele toda sorte de problemas mundanos, crises tardias, sonhos desfeitos
Deveria terminar com ele toda essa adolescência atípica que veio de chofre, cheia de som e de fúria louca apaixonada e vã
Deveria terminar com ele, enfim, tudo aquilo que eu ainda não acredito que tenha terminado.
Mas não. Só mudam os números. Acabou o ano. Mas pra mim ainda não terminou.

Isso só porque, tendo findado uma etapa da minha vida definitivamente, julguei-me forte o suficiente pra iniciar outra... ledo engano. Foi como cortar as asas em pleno vôo.

(E como promessa para 2012, devo me expor menos...só um pouco menos...mais uma promessa de Ano Novo a não cumprir?)




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

I wait for you there...alone...alone...

In your house I long to be
Room by room patiently
I'll wait for you there like a stone
I'll wait for you there alone, alone

Chris Cornell

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

You don't know, you don't know what's like...



Ninguém sabe o que é...amar alguém... e o pior é que anda cheio de babaca por aí se julgando o felizardo.

Eu sinto falta... não de quem teve a chance e perdeu...Mas de quem não me deu a chance...


YOU DON'T KNOW, DON'T KNOW WHAT'S LIKE...TO LOVE ANYBODY...

Ninguém, ninguém mais sabe.

domingo, 20 de novembro de 2011

Pequena crônica sobre cartas de amor

"Todas as cartas de amor são ridículas/Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas"
(Fernando Pessoa)

Encontrei, dentro da capa do meu violão, uma carta. Uma carta, vomitada em duas folhas de bloco de papel amarelado, escrita com uma esferográfica Bic preta. Sem produções ou qualquer outro capricho maior. Apenas um monte de palavras distribuidas por linhas semi-tortas.

Na minha adolescência troquei muitas, muitas cartas. Com amigas, com gente de outro país - gente que não cheguei a conhecer - e com meu primeiro namorado. Eram cartas bonitas, bem elaboradas. Muito bem escritas, coloridas, cheias de adesivos, fotografias, perfumes. Letras de músicas. Numa época em que a internet ainda se consolidava como meio de comunicação, eu fazia parte, junto com meus correspondentes, de um grupo de resistência que ainda mantinha vivo o hábito da correspondência pelo papel. Testemunhamos juntos a queda em desuso das cartas como forma de comunicação informal, que vieram a ser substituídas pelo que hoje conhecemos por e-mail.


De todas as cartas que  recebi...Todas queimei. Pois considero (assim como fala Rubem Braga sobre conversa entre amigos em "Sobre o Amor, etc.) que cartas falam de mortos. Pois aquela pessoa que me escreveu já não existe mais: embora sendo a mesma pessoa, embora  em seu íntimo guarde a lembrança dessas cartas escritas, não é mais a moça espanhola estudante de inglês, não é mais a amiga de ginásio que adorava mitologia, não é mais o garoto apaixonado de 18 anos que sonhava em ser biólogo. Todos continuam, embora vivos, em rumos diferentes e exercendo diferentes papéis sociais. Logo, o que foram, se não existe mais, está morto. E a outra pessoa que as recebeu - no caso eu - também já não existe, de uma vez que modificou-se pelos tantos rios do tempo e igualmente não é mais a adolescente apaixonada estudante de inglês  que sonhava ser professora e escritora.

Mas esta carta...esta carta que eu escrevi, e que não chegou ao destinatário...ao lê-la, foi como se suas palavras estivessem escritas em braile, e eu, cegada pelo tempo, pudesse ver, tocando cada uma delas, o meu passado nem tão remoto. Nesse momento infinitas sensações percorreram o meu cérebro, o meu corpo, a minha alma toda, como uma onda de pequenos choques: angústia, vazio, decepção. Pequena amargura e saudade. Eu era convicta de um sentimento alheio que nunca existiu. Eu senti, em cada linha, a noite fria em que a escrevi, senti meu choro, senti o meu desespero, senti a aflição insuportável da espera.

Um pequeno tempo passou. Mais tarde a espera pelo correspondente, cuja carta jamais leu,  transformou-se num encontro frio e banal, que nada mais significou além de um "foi bom tê-la conhecido, seja feliz e até mais".

Num ímpeto, tive vontade de resgá-la em mil pedaços. Mas, pensando melhor, decidi guardá-la. De uma vez que esta carta fala de mortos: tanto a pessoa para quem escrevi não existe mais - e talvez nunca tenha existido, tenha sido fruto da minha imaginação ridiculamente romântica, assim como são ridículas as cartas de amor - quanto eu, que morri cada dia um pouco, por vezes sufocando, por vezes deixando agonizar lentamente um sentimento inútil. 

Nada há de mal em conservá-la, como um pequeno memorial de paixões frustradas. Como se guarda uma peça de vestuário de quem se foi. Como se conserva alguma coisa arcaia e em desuso que é vista, por todos que passam, como ridícula. Assim como são ridículas todas as cartas de amor.




Cartas de amor só deixam de ser necrológio ridículo quando se vive o que nela se lê...parece óbvio?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ensaio sobre A insustentável leveza do ser

(Aviso aos navegantes: texto longo, narrativa densa, colocações extensas e filosóficas. Só passe dessa linha se estiver com paciência)

Sobre este livro, para começar, confesso que na primeira leitura, ficou isso aí que consta no resumo: compreender a traição. Foi lido nas minhas férias de verão num momento em que preferia estar cega a certas realidades da minha alma e do mundo. Mas nesse último feriado eu procurei relê-lo. E o reli de forma sôfrega, procurando respostas – que obviamente não encontrei.
Mas me chamaram atenção alguns pontos que eu não posso deixar de expor.

O primeiro deles é: como um autor como Milan Kundera, um cara que nasceu em 1929, pôde ter idéias tão visionárias em plena década de 80 sobre os relacionamentos entre homem e mulher? Nesse momento eu me questiono sobre duas perspectivas. A primeira delas é: sempre foi assim, o que me conforta em saber que essa confusão de duas almas que abrigam a carne da mesma espécie e falam línguas de mundos diferentes não é de hoje, e que se estamos nesse momento em que a insustentável leveza parece um bem maior a ser alcançado mais do que qualquer outra coisa, é porque isso foi fomentado desde o começo (!!) do século passado (e nesse caso não deixo de constatar com pesar que eu sou um tanto anacrônica, mas deixemos isso para outro post). A segunda é: não, nem sempre foi assim, isso é idéia de uma sociedade louca pós regime fechado, fruto de uma mente libertina - e nem por isso menos visionária – que aspirava a uma sociedade em que o amor livre é prerrogativa para o alcance da felicidade suprema.
Nem uma e nem outra me confortam o suficiente quando penso que estamos nesse estado de coisas, exatamente como Milan Kundera descreve em sua obra. A cada dia que passa – embora ainda haja muitos e muitos casamentos por aí - um número cada vez maior de homens e mulheres aos trinta anos tem vivido suas vidas como se não houvesse amanhã. Como se sua existência fosse inútil e vazia. Criar vínculos mais profundos e duradouros parece algo criminoso. Porque todo vínculo é pesado. E nada há de mais abominável do que reter a alma ao peso da obrigação, da construção diária e dolorosa do vínculo. Eu não posso dizer que sou contra, embora não partilhe desse pensamento. Como todo ser denso, que insiste em ancorar a alma na construção desses pesados vínculos, eu só fico me perguntando como estarão esses “adultescentes” – e o digo sem crítica, pois eu mesma sou uma deles nesse momento de minha vida – daqui a dez ou vinte anos... Quando o peso da idade lhes puxar para adiante do espelho para lhes dizer: eis-me aqui, tomando conta de teu corpo que por minha causa pesa e que não há quem carregue, em nome do capricho de sua busca sôfrega pela leveza.

Outra coisa que me chama a atenção é a densidade dos personagens. Tomas é o que a maioria dos homens é ou aspira ser. Quanto a ele, pouco há que se dizer, exceto o estranho fato de não contentar-se somente com um corpo e desejar colecionar rictos de mulheres na intimidade como quem coleciona carrinhos em miniatura, ou souvenires de cidades, ou selos, ao mesmo tempo em que sua alma é inteiramente tomada pela figura de uma única mulher – o eterno combate entre o peso da alma e a leveza do corpo. 
O que chama a atenção são as duas mulheres desse romance, Sabina e Tereza. Num olhar mais cuidadoso, essas figuras diametralmente opostas trazem na sua nota de fundo um lugar comum. Tereza busca livrar-se de sua sentença de vida fugindo da mãe para instalar-se em Praga e entrega inteiramente a Tomas a responsabilidade por sua vida. Foi treinada para se apaixonar desde a infância, e entregar-se inconsequentemente a um homem – e diga-se mais inconseqüente entrega da alma – foi como que condená-lo pelos anos e anos de condicionamento cego à figura de donzela, que espera que o príncipe encantado a salve da madrasta perversa que a tranca na torre. E a ela, pouco interessa que Tomas não seja o príncipe, ela entrega sua vida a ele e pronto; poderia ser ele ou qualquer outro, como o próprio Tomas mencionou em algum trecho do livro. Isso tem um quê de bizarro. Ou um quê de kitsch, termo visto constantemente no livro, mencionado e odiado por Sabina, a quem não interessa o convencional e o comum.

Sabina, ao contrário, na tentativa de escapar do kitsch e do lugar comum, escapar da ordem e do padrão, se propõe a uma vida de constantes traições, vindo a trair até mesmo seu ideal íntimo de ter uma família e filhos – o que descobre tardiamente, quando seus amantes se foram e nada mais lhe resta do que terminar a vida pintando seus quadros. Isso também é bizarro. E nesse momento encontramos dois pontos comuns: o bizarro e a essência feminina, ora velada, ora escancarada: toda mulher quer ter alguém. Só que, enquanto Tereza se conformava em ter apenas a alma de um homem, mesmo sabendo que o corpo dele pertencia não só a ela, mas a mais 200 e tantas mulheres distribuídas ao longo de sua existência, e sofrendo com isso, e fazendo sofrer, Sabina talvez se negasse a dividir um homem em dois – a eterna dualidade alma e corpo – e tivesse, ainda que com um certo despeito discreto, contido, se resignado à condição de usufruir de quantos corpos quisesse pois, bem sabia, lhe seria doloroso demais construir qualquer vínculo com uma alma cujo corpo não fosse só seu. E mesmo quando teve essa oportunidade, com o aparecimento de Franz na história, deparou-se com a severa questão que permeia todo o livro: o peso do vínculo, o que a fez recuar diante da possibilidade de modificar para sempre o seu destino e aprisioná-la ao eterno peso da construção e alimentação da relação nossa de cada dia, institucionalizada pela criação da família, juramentada ou não.


Como classificar essa obra? Sem dúvida alguma – constatação redundante - uma obra prima. Atravessou quase três décadas e com certeza atravessará mais três trazendo à luz uma questão atual e angustiante: construir ou não vínculos com alguém? Ter ou não família, obrigações chatas, filhos, casar, trabalhar em benefício da prole? Ter ou não alguém para relacionar-se seriamente? Preferível chegar ao fim da vida fatigado pelo peso dos sucessivos desgastes emocionais vividos em família, ou em função dela, ou simplesmente chegar ao cabo da existência sem qualquer sinal de envolvimento, pairando leve, “acima da carne e do metal”, sem deixar marca maior do que a que deixa uma efêmera bolha de sabão?
E aí eu termino sem poder dar um parecer, pois ainda não vivi o suficiente para formar uma conclusão, embora seja um tanto anacrônica, como diria Tereza, e carregue comigo essa visão de princesa na torre. Porém, ao final da minha vida, quando finalmente souber, tudo o que dela aprender vou levar comigo ao túmulo. E levando isso ao túmulo, é como se meu aprendizado jamais tivesse existido. Pois a vida é uma só, e nada do que dela se faz poderá ser aproveitado em próximas existências. Porque afinal, como diria o próprio Milan, citando um provérbio alemão, einmal ist keinmal . Uma vez não conta. Uma vez é nunca.

(fotos extraídas do filme homônimo, de 1988 - Milan Kundera, de acordo com a Wikipédia, nunca mais permitiu que transformassem em filme qualquer outra de suas obras)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Momento jazz

I want a little sugar in my bowl...


Presentinho de Natal antecipado - pequenas coisinhas que nos fazem feliz!