(Aviso aos navegantes: texto longo, narrativa densa, colocações extensas e filosóficas. Só passe dessa linha se estiver com paciência)
Sobre este livro, para começar, confesso que na primeira leitura, ficou isso aí que consta no resumo: compreender a traição. Foi lido nas minhas férias de verão num momento em que preferia estar cega a certas realidades da minha alma e do mundo. Mas nesse último feriado eu procurei relê-lo. E o reli de forma sôfrega, procurando respostas – que obviamente não encontrei.
Mas me chamaram atenção alguns pontos que eu não posso deixar de expor.
O primeiro deles é: como um autor como Milan Kundera, um cara que nasceu em 1929, pôde ter idéias tão visionárias em plena década de 80 sobre os relacionamentos entre homem e mulher? Nesse momento eu me questiono sobre duas perspectivas. A primeira delas é: sempre foi assim, o que me conforta em saber que essa confusão de duas almas que abrigam a carne da mesma espécie e falam línguas de mundos diferentes não é de hoje, e que se estamos nesse momento em que a insustentável leveza parece um bem maior a ser alcançado mais do que qualquer outra coisa, é porque isso foi fomentado desde o começo (!!) do século passado (e nesse caso não deixo de constatar com pesar que eu sou um tanto anacrônica, mas deixemos isso para outro post). A segunda é: não, nem sempre foi assim, isso é idéia de uma sociedade louca pós regime fechado, fruto de uma mente libertina - e nem por isso menos visionária – que aspirava a uma sociedade em que o amor livre é prerrogativa para o alcance da felicidade suprema.

Nem uma e nem outra me confortam o suficiente quando penso que estamos nesse estado de coisas, exatamente como Milan Kundera descreve em sua obra. A cada dia que passa – embora ainda haja muitos e muitos casamentos por aí - um número cada vez maior de homens e mulheres aos trinta anos tem vivido suas vidas como se não houvesse amanhã. Como se sua existência fosse inútil e vazia. Criar vínculos mais profundos e duradouros parece algo criminoso. Porque todo vínculo é pesado. E nada há de mais abominável do que reter a alma ao peso da obrigação, da construção diária e dolorosa do vínculo. Eu não posso dizer que sou contra, embora não partilhe desse pensamento. Como todo ser denso, que insiste em ancorar a alma na construção desses pesados vínculos, eu só fico me perguntando como estarão esses “adultescentes” – e o digo sem crítica, pois eu mesma sou uma deles nesse momento de minha vida – daqui a dez ou vinte anos... Quando o peso da idade lhes puxar para adiante do espelho para lhes dizer: eis-me aqui, tomando conta de teu corpo que por minha causa pesa e que não há quem carregue, em nome do capricho de sua busca sôfrega pela leveza.
Outra coisa que me chama a atenção é a densidade dos personagens. Tomas é o que a maioria dos homens é ou aspira ser. Quanto a ele, pouco há que se dizer, exceto o estranho fato de não contentar-se somente com um corpo e desejar colecionar rictos de mulheres na intimidade como quem coleciona carrinhos em miniatura, ou souvenires de cidades, ou selos, ao mesmo tempo em que sua alma é inteiramente tomada pela figura de uma única mulher – o eterno combate entre o peso da alma e a leveza do corpo.

O que chama a atenção são as duas mulheres desse romance, Sabina e Tereza. Num olhar mais cuidadoso, essas figuras diametralmente opostas trazem na sua nota de fundo um lugar comum. Tereza busca livrar-se de sua sentença de vida fugindo da mãe para instalar-se em Praga e entrega inteiramente a Tomas a responsabilidade por sua vida. Foi treinada para se apaixonar desde a infância, e entregar-se inconsequentemente a um homem – e diga-se mais inconseqüente entrega da alma – foi como que condená-lo pelos anos e anos de condicionamento cego à figura de donzela, que espera que o príncipe encantado a salve da madrasta perversa que a tranca na torre. E a ela, pouco interessa que Tomas não seja o príncipe, ela entrega sua vida a ele e pronto; poderia ser ele ou qualquer outro, como o próprio Tomas mencionou em algum trecho do livro. Isso tem um quê de bizarro. Ou um quê de kitsch, termo visto constantemente no livro, mencionado e odiado por Sabina, a quem não interessa o convencional e o comum.

Sabina, ao contrário, na tentativa de escapar do kitsch e do lugar comum, escapar da ordem e do padrão, se propõe a uma vida de constantes traições, vindo a trair até mesmo seu ideal íntimo de ter uma família e filhos – o que descobre tardiamente, quando seus amantes se foram e nada mais lhe resta do que terminar a vida pintando seus quadros. Isso também é bizarro. E nesse momento encontramos dois pontos comuns: o bizarro e a essência feminina, ora velada, ora escancarada: toda mulher quer ter alguém. Só que, enquanto Tereza se conformava em ter apenas a alma de um homem, mesmo sabendo que o corpo dele pertencia não só a ela, mas a mais 200 e tantas mulheres distribuídas ao longo de sua existência, e sofrendo com isso, e fazendo sofrer, Sabina talvez se negasse a dividir um homem em dois – a eterna dualidade alma e corpo – e tivesse, ainda que com um certo despeito discreto, contido, se resignado à condição de usufruir de quantos corpos quisesse pois, bem sabia, lhe seria doloroso demais construir qualquer vínculo com uma alma cujo corpo não fosse só seu. E mesmo quando teve essa oportunidade, com o aparecimento de Franz na história, deparou-se com a severa questão que permeia todo o livro: o peso do vínculo, o que a fez recuar diante da possibilidade de modificar para sempre o seu destino e aprisioná-la ao eterno peso da construção e alimentação da relação nossa de cada dia, institucionalizada pela criação da família, juramentada ou não.

Como classificar essa obra? Sem dúvida alguma – constatação redundante - uma obra prima. Atravessou quase três décadas e com certeza atravessará mais três trazendo à luz uma questão atual e angustiante: construir ou não vínculos com alguém? Ter ou não família, obrigações chatas, filhos, casar, trabalhar em benefício da prole? Ter ou não alguém para relacionar-se seriamente? Preferível chegar ao fim da vida fatigado pelo peso dos sucessivos desgastes emocionais vividos em família, ou em função dela, ou simplesmente chegar ao cabo da existência sem qualquer sinal de envolvimento, pairando leve, “acima da carne e do metal”, sem deixar marca maior do que a que deixa uma efêmera bolha de sabão?

E aí eu termino sem poder dar um parecer, pois ainda não vivi o suficiente para formar uma conclusão, embora seja um tanto anacrônica, como diria Tereza, e carregue comigo essa visão de princesa na torre. Porém, ao final da minha vida, quando finalmente souber, tudo o que dela aprender vou levar comigo ao túmulo. E levando isso ao túmulo, é como se meu aprendizado jamais tivesse existido. Pois a vida é uma só, e nada do que dela se faz poderá ser aproveitado em próximas existências. Porque afinal, como diria o próprio Milan, citando um provérbio alemão, einmal ist keinmal . Uma vez não conta. Uma vez é nunca.
(fotos extraídas do filme homônimo, de 1988 - Milan Kundera, de acordo com a Wikipédia, nunca mais permitiu que transformassem em filme qualquer outra de suas obras)